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OK Doutor, o Senhor venceu... Mas, a Utopia se Realizará, sim.
Ok Doutor, você venceu. A utopia não se realizará.
Dou-me por vencido...Que força teria qualquer argumento meu diante da
prova cabal e fulminante que vossa senhoria me apresenta, o dicionário
aberto na página onde a palavra utopia encontra-se grafada. Utopia,
projeto irrealizável, fantasia, quimera, etc.
Sim, doutor, eu estava enganado quando afirmei acreditar na realização
da Utopia.
Como fui tolo e incoerente em acreditar que algo intangível e inatingível
possa ser alcançado.
Parabéns, doutor! Como um advogado, o senhor abriu o dicionário, como
se este fosse a carta magna e brilhantemente impetrou um mandado
de segurança contra a instauração da Utopia.
Provando que morfologicamente a etimologia contraria a dialética,
conferindo à Utopia um caráter totalmente inconstitucional.
Eu até pensei que poderia convencê-lo ao citar Aldous Huxley em seu
comentário sobre o Admirável Mundo Novo, quando ele diz que “O
medo da humanidade é que as Utopias se realizam”.
É claro que se Aldous conversasse com vossa senhoria, teria que rever o seu conceito
e até mesmo que se retratar por ter dado à palavra utopia um sentido
representativo da soma dos anseios e aspirações individuais. A ampliação
para o coletivo dos ideais mais românticos e menos egoístas.
A vontade e motivação maior da alma humana, resplandecida e verbalizada em um
som, inaudível àqueles que insistem em tapar os ouvidos, mas, ecoando
num canto de chamamento, convidando à felicidade todos os povos, reunindo-os
em uma única nação; Onde tremula desfraldada no horizonte a bandeira
da paz e do amor maior; epa, desculpe-me, doutor, mas acho que agora
viajei um pouquinho além,...Mas, buscando expressar-me de uma maneira
mais racional, conforme vossa senhoria deve preferir; aquilo que Carl
Jung denominou como “Inconsciente Coletivo”.
Ok, doutor, o senhor venceu, a Utopia não se realizará, porque, se ousar contrariar
a gramática, será condenada a desaparecer das mentes e espíritos ao
desintegrar, fragmentando-se e incorporando-se ao mundo que chamamos
realidade. Assim como os nossos sonhos que deixam de ser sonhos quando
se realizam; aquilo que um dia foi considerado utópico, como as viagens
espaciais, a comunicação à distância, o computador, a clonagem, enfim,
isso e muito mais, hoje em dia não passam de simples questões tecnológicas.
Nem ao menos realismo fantástico pode ser considerado.
Pois é, doutor, mas o senhor jamais se deixaria convencer por balelas,
quimeras sofismáticas, não é mesmo, doutor?
Ok, doutor, mas, por favor, permita-me ao menos em consideração à
bravura com a qual debati defendendo a utopia (que não existe), continuar
vibrando e conspirando favoravelmente pela realização dos ideais mais
altruístas dos homens, pelo menos os de boa vontade.
O desejo de um mundo novo alicerçado nos mais nobres valores de justiça
e liberdade. Um mundo onde a exploração do homem pelo homem não ocorra,
simplesmente por este ser um comportamento desumano.
Onde todos, sem distinção, são iguais em direitos e oportunidades
e o valor individual avaliado apenas pela maior ou menor capacidade
para servir (independente da conta bancária). Um lugar onde as leis
pudessem ser traduzidas em simples recomendações, como: O respeito
à natureza e tudo que exista nela em especial o respeito próprio e
ao semelhante. Um lugar onde as competições tenham como único objetivo
á auto-superação física, mental, artística, cultural e produtiva.
Uma terra onde todos os seus pomares, suas roças, seus mananciais
e riquezas sejam comuns a todos.
Bem, doutor, ainda me resta o consolo da promessa da terra prometida
habitada por seres verdadeiramente humanos.
É, doutor, o senhor pode até dizer que sou um sonhador, mas vai se
preparando..., Porque como disse John Lennon, eu já não sou o único...
Ok, doutor, mas pensando melhor, vá à merda com seus falsos valores
e com a sua falsa descrença no potencial humano de se autogovernar.
Vá à merda com aquela sua falsa idéia de que o homem só funciona sendo
submetido, e que alguns nasceram para serem senhores, enquanto a maioria
quase absoluta nasceu para ser escravo...
Caro doutor. é perfeitamente compreensível a sua postura. Vossa Senhoria
defende os seus falsos valores, numa tentativa inútil de neles acreditar.
E assim justificar sua condição de homem rico, sem nenhuma contrapartida
produtiva. Em um país, onde aqueles que têm trabalho; trabalham tanto
por tão pouco, imagino o sentimento de culpa que carregam aqueles
que possuem tanto sem nada produzir, culpa esta, a responsável pelas
neuroses dos teomânicos burgueses.
Ainda mais no seu caso, que o dinheiro foi herança do pai, um político,
que fez em sua vida pública o que todos nós fazemos melhor na privada,
e cujos vencimentos recebidos, nem de longe justificaria a fortuna
que acumulou e lhe deixou, deixando também o legado de sua má índole
e neuroses egocêntricas.
Assim sendo, doutor, os sonhos de justiça dos oprimidos e vítimas
da exploração, são também, os pesadelos dos opressores e exploradores
que sempre encontrarão dispositivos legais ou não, valendo-se até
mesmo do dicionário, se for preciso, para impedir a Utopia.
Doutor, pra
você, melhor nem pensar que o equilíbrio individual implica equilíbrio
coletivo e que o equilíbrio coletivo é reflexo do equilíbrio individual,
porque isso implicaria responsabilidades, não é mesmo doutor?
Ok, você venceu, mas a Utopia se realizará,
sim! E se o senhor seu avô fosse estéril ou simplesmente tivesse sido
castrado antes de procriar, com toda a certeza, ela estaria um pouco
mais próxima!
Mauricio Carvalho Marques em "Barco de Ilusões".
Maurício Marques, autor do Romance "O Leão Sol e a Abelha Lua de Mel".
www.mauriciomarques.com.br
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